Mesmo sem recorrer excessivamente às teorias, o autor, Donald Norman, jutifica todos os seus pontos de vista e levanta neste maravilhoso livro, inúmeras problemáticas do nosso quotidiano, não às deixando de exemplificar e exemplificar.

“Just as emotions are critical to human behavior, they are equally critical to intelligent machines, especially autonomous machines of the future that will help people in their daily activities.”
O que Donald Norma conclui é que existe algo mais entre um utensílio, o usuário e o uso propriamente dito, segundo ele existe também o “prazer”. Este prazer surge na medida em que o tal utensílio passa a decodificar o homem e sua vida. O prazer de usar a tal coisa é paralelo ao prazer que tem-se em satisfazer a necessidade do uso, pois acrescentamos neles o prazer de sua utilização.
“EMOTIONS ARE ALL ABOUT JUDGEMENT”
A estruturação de 3 níveis de design [visceral, comportamental e reflexivo] e a compreensão de que a emoção está intimamente ligada à lógica permitiu a Norman fundamentar as suas conclusões. De facto, não é possível separar cada uma das dimensões de um processo de decisão. “Emotion changes the way the human mind solves problems” – é errado pensar que reagimos logicamente às situações com que nos deparamos.
Embora a cognição nos ajude a interpretar o mundo que nos rodeia, é a emoção a primeira reacção do ser humano, porque, como diz Norman, mais importante que compreender é sobreviver.
Quando pensamos nos objectos com que interagimos, o processo é o mesmo. O primeiro impacto que temos é a sua aparência, é ela que nos descodifica os atributos do objecto – bonito/feio, agradável/desagradável, familiar/estranho são características atribuídas quase de imediato e que não tendem a variar de indivíduo para indivíduo. Por outro lado, são os níveis comportamental e reflexivo os mais sensíveis à experiência. Actuam a um nível inconsciente, lidando com a experiência que temos relativamente ao objecto [relação entre função, performance e “usabilidade”]. Mas é o terceiro nível o mais vulnerável às diferenças culturais, pessoais,educacionais e sociais. A nossa satisfação pessoal e as nossas memórias são jurados naquele que é o julgamento final sobre a racionalização e intelectualização do uso do produto.
“It is not possible to have design without all three. But more important, note how these three components interweave both with emotions and cognition. (…) A successful design has to excell at all levels.” – para além de ter noção destes conceitos, um designer deve sobretudo ter noção que é muito ténue a linha que os separa.
“ONE PERSON’S ACCEPTENCE IS ANOTHER ONE’S REJECTION. WORSE, WHAT IS APPEALING AT ONE MOMENT MAY NOT BE AT ANOTHER.”
Quando laçada a questão – É possível fazer design que agrade a toda a gente? -, a resposta é bastante óbvia: não. A este nível, faz sentido efectuar um paralelismo entre a função do designer e algumas políticas de marketing, já que é segmentando e conhecendo o seu público-alvo que o designer ultrapassa a impossibilidade de agradar a gregos e a troianos. Se é difícil conhecer a personalidade do utilizador, ainda mais difícil é prever mudanças de espírito e emoções que decorrem num espaço de dias, horas, minutos. É neste aspecto que interessa conhecer alguns princípios de marketing, sobretudo relativamente aos estudos de mercado. Nenhum produto atinge o seu objectivo se não é correcta e eficazmente direccionado a um determinado público-alvo. O design não é excepção.
Uma das problemáticas que julgo mais pertinente no primeiro capítulo é a que se refere à possibilidade/impossibilidade de conciliar beleza e eficácia no mesmo produto. Será utópico reunir estes dois atributos no mesmo objecto? Como refere o autor, “ Usable design is not necessarily enjoyable to use. (…) An attractive design is not necessarily the most efficient. But must these attributes be in conflict? Can beauty and brains, pleasure and usability go hand in hand?”.
Se pensarmos que a emoção e a razão, embora de lados opostos, se dissolvem, não me parece utópico que beleza e eficácia não façam o mesmo. O autor fundamenta de forma bastante concisa que objectos atractivos funcionam melhor. De facto, a sua atracção desperta curiosidade e emoções positivas que, por sua vez, tornam o processo mental mais criativo e tolerante às dificuldades. “How does that make something easier to use?” –
Objectos pouco atractivos suscitam a repetição de erros, não porque são pouco eficazes, mas porque aumentam a ansiedade e frustração do utilizador. Ou seja, a capacidade de um objecto atrair o seu utilizador aumenta a tolerância aos erros e a busca de soluções alternativas. É neste aspecto que a beleza pode estar, não contra, mas a favor da usabilidade do produto – “products and systems that make you feel good are more easier to deal with and produce more harmonious results.”.
A dualidade entre as nossas necessidades e desejos acrescenta fundamento a esta teoria. A distância entre aquilo que precisamos e aquilo que queremos faz toda a diferença quando falamos da eficácia de um produto. “Wants can me more powerfull than needs.” É o derradeiro argumento de que não é a “usabilidade” de um objecto que determina a sua eficácia.
“THE OBJECTS IN OUR LIVES ARE MORE THAN MERE MATERIAL POSSESSIONS (…) BECAUSE OF THE MEANING THEY BRING TO OUR LIVES.”
O sub-capítulo Objects that evoke memories lança questões que me cativam particularmente. Podia redigir um parágrafo só de citações, porque considero que é aqui que a fundamentação do autor excede em criatividade e pertinência.
De facto, quantas vezes menosprezamos o valor das souvenirs pela sua qualidade “rasca”, impessoalidade, e até mesmo pelo baixo preço… O que é certo é que todos nós as oferecemos. Como diz D. Norman, o que é que a popularidade destes objectos nos diz? Como todo o acto massificado, existe sempre uma razão psico e/ou sociológica que nos transcende à primeira vista. Neste caso, não chega atribuir ao preço a responsabilidade pela popularidade destes objectos. Chamo atenção para a frase do início do parágrafo, porque sem dúvida que a ligação simbólica a estes objectos transcende o seu valor material – “that object is important only as a symbol, as a source of memory, of associations.”.
Mais uma vez, é indiscutível o papel que a emoção representa na forma como nos relacionamos com os objectos. Passa a fazer sentido afeiçoarmo-nos a objectos simples e desgostar de objectos super-ultra-mega fantásticos. No fundo, o valor do objecto transcende a sua qualidade, beleza e “usabilidade”. É valioso pelas sensações e memórias que nos invoca.
Não posso deixar de concluir com uma citação que me deu que pensar, mas que em vez de desenvolver, prefiro dar asas a comentários interessantes [quem sabe…]: “Our self image plays a more important role in our lives than we like to admit. Even those who deny any interest in how others view them actually do care, if only by making sure that everyone else understands that they don’t.”